Em 1.992 eu tinha 18 anos e acabava de sair do colégio técnico.

Apesar de não ter plena consciência do momento histórico de nosso país, meu sentimento era de entusiasmo e euforia, pois eu tinha conseguido um estágio numa das maiores empresas de informática de SP – a Pró Hardware (e informática naquela época era uma coisa ainda elitizada até nas empresas).

O mercado de hardware ainda era fechado e a importação de itens de informática ainda tinha proteção do governo, o que tornava a compra e a importação de equipamentos muito cara.

Foi neste cenário que aprendi uma das coisas que fizeram toda a diferença na minha carreira.

Eu pensei que este estágio me tornaria um técnico competente, mas eu ganhei muito mais do que conhecimento técnico. As habilidades profissionais que adquiri na Pró Hardware, hoje são obsoletas, mas a lição sobre valores que meu gerente me ensinou se tornou uma diretriz que aplico todos os dias nas minhas decisões.

O diretor da empresa havia trazido nos EUA um HD IDE, que na época era tecnologia de ponta. O valor desse disco era de mais de U$ 4.000,00 (algo como 10 vezes o meu salário). Ele deixou o HD no nosso departamento para que a gente testasse e conhecesse o que havia de mais moderno no mercado mundial e o Rocco, que era meu supervisor, pediu para que eu montasse o HD em nosso computador de testes.

Por descuido, eu liguei um cabo invertido e queimei o HD – pronto, sem conserto antes do primeiro uso.

A primeira coisa que me veio à mente foi – estou demitido, perdi o estágio e vou ter que bancar o prejuízo da empresa.

Com o “coração na boca”, chamei o Rocco e disse que eu tinha estragado o HD, que queria pagar o prejuízo e que entenderia se ele não quisesse nem que eu terminasse o dia de expediente.

Ele me respondeu:

“Você não queimou o HD, eu queimei”

Não entendi a resposta dele e nem conseguia dizer nada.

Daí ele disse de novo – “eu queimei o HD!”

Acho que ele percebeu a interrogação no meu rosto e explicou melhor. “Cara, eu sou o supervisor desta área e você é nosso estagiário. Se você queimou uma peça cara, foi por que eu errei e achei que não precisaria te ajudar a fazer o trabalho. O erro de critério que eu cometi foi o que queimou o HD.”

Depois de dizer isso, ele foi para sala do diretor.

Quando ele voltou pro nosso departamento ele me disse: “Fica frio, está tudo resolvido”.

Até hoje, só ele e eu sabíamos o que realmente aconteceu.

Lição que o mestre Rocco me ensinou: O verdadeiro líder é aquele que assume os erros dos seus liderados e não aquele que usurpa o sucesso de sua equipe.

Em tempo: Apesar de termos seguido trajetórias profissionais totalmente distintas (hoje o Rocco é professor de economia), somos muito amigos e eu continuo a prestar muita atenção nos conselhos sábios deste excelente profissional.

Assinatura Diego